A urgente humanização da clínica médica

Elias Farah

Dois notáveis fatores – a tecnologia e o humanismo - se defrontam, na atualidade, no exercício da clínica médica. O ideal é que estas forças se comungassem, coexistissem, e se completassem. O humanismo, de um lado, é o avanço da descoberta do homem enquanto homem. A concepção humanística sofreu, ao longo dos séculos, mutações radicais, e ultimamente, com o humanismo religioso de Maritain; com o humanismo materialista, de Marx; com o humanismo existencialista de Sartre; e diríamos, hoje, no humanismo tecnológico da indústria moderna. A tecnologia, na medicina, de outro lado, constitui o esforço racional e científico em desvendar os mistérios e os fenômenos das coisas e encontrar processos mais seguros e eficazes para a solução dos males da nossa terrível fragilidade física e mental.

A melhor evolução da medicina estaria na conjugação, na conciliação e na ampliação da visão humanísta do paciente, objetivando analisá-lo na sua integralidade física, mental, comportamental, social, familiar, cultural, genética, de onde pode, de alguma forma, provir a moléstia, ou os obstáculos que impedem a sua cura, aplicando-lhe após, com mais convicção e segurança, os recursos tecnológicos disponíveis. É muito urgente a humanização da clínica médica, restabelecendo-lhe a credibilidade, que é historicamente o seu maior atributo.

Neste silencioso conflito entre o humanismo e a tecnologia, no cumprimento do sacerdócio médico, o relacionamento médico-paciente vem perdendo progressivamente a condição básica da pessoalidade, como seu requisito de maior relevância, e passa a prevalecer, na ordem dos valores, não mais o paciente, como ser humano, que quer ser curado, mas, sim, isoladamente a doença, como inimigo a ser combatido. Despessoalizado o relacionamento médico-paciente, mercantilizado o atendimento na medicina de grupo e pacotes, a doença passa a ser encarada como um desafio autônomo, alheio ao paciente, que o médico quer superar, separado do homem que padece com toda as dramáticas conseqüências pessoais, familiares e profissionais da doença.

Muitos médicos estão sabiamente a reclamar o resgate daquele procedimento clássico de clínica médica, de inspiração hipocrática, pelo qual o diagnóstico é precedido de um diálogo confidente, sereno, minudente, paciencioso, em que a figura humana do paciente é analisada em todas as suas facetas, expostas ou ocultas, na inteireza de todos os fatores físicos, emocionais, espirituais, fisiológicos etc, e que sabidamente sejam capazes, direta ou indiretamente, de atormentar a nossa saúde. O humanismo, por isso, quer significar que, em qualquer momento e circunstância, o homem e os valores humanos devem estar colocados acima de todos os outros.

A tecnologia não veio substituir a íntima e pessoal relação médico-paciente, por natureza insubstituível, considerada ajustadamente como a mais relevante característica da nobreza da atividade médica. Ela veio subsidiar as conclusões diagnósticas, fortalecendo-lhes a certeza dos prognósticos. O humanismo é a mais sublime das virtudes do homem e o melhor instrumento de trabalho das profissões destinadas a lidar com o sofrimento, com a dor e com a angústia humana.

Existe uma justa e generalizada preocupação entre os profissionais liberais, como médicos, advogados, dentistas etc, em relação à progressiva escalada da mercantilização abusiva dos respectivos ensinos superiores. Grande parcela das novas gerações de profissionais já vem condicionada a uma visão distorcida da realidade, desprovida de sensibilidade humanista, dependente, mais do que convém, da existência e da eficiência dos instrumentos e equipamentos tecnológicos. Dentro deste enfoque, por natureza incompleto, cada paciente é representado tão somente pela moléstia que exibe, e não pela figura humana com que ele quer se apresentar, na justificada esperança, nem sempre otimista, da sua cura ou salvação.

(Revista do CEPE)